imagem gerada por inteligencia artificial para ilustrar matéria sobre frio em bangu

Frio em Bangu? 18 registros abaixo de 10 graus na Zona Oeste do Rio

Parece piada, mas não é. Quem conhece a Zona Oeste do Rio sabe como essa parte da cidade costuma ser bem quente. Mas só quem mora aqui sabe o quanto faz de frio em Bangu, Campo Grande, Realengo e região. Não foram muitas, mas acredite, encontramos 18 registros em que os termômetros na Zona Oeste marcaram menos de 10 graus.

Para chegar nesses dados, buscamos no histórico meteorológico disponibilizado no site do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) e edições antigas no acervo do Jornal O Globo.

A lista com os dias e a repercussão que o frio teve na época estão abaixo:

  1. 5,6 ºC em Deodoro – 19/07/1926
  2. 5,8 ºC em Deodoro – 08/07/1923
  3. 6,4 ºC em Bangu – 18/08/1933
  4. 6,8°C em Deodoro – 15/07/1925
  5. 7,0°C em Deodoro – 11/07/1927
  6. 8,0°C em Bangu – 5/08/1931
  7. 8,5 ºC em Realengo – 07/07/1975
  8. 8,6 ºC em Realengo – 18/07/2000
  9. 8,7 ºC em Bangu – 27/06/1994
  10. 8,7 ºC em Realengo – 08/07/1975
  11. 9,0 ºC em Bangu – 18/07/2000
  12. 9,0 ºC em Realengo – 23/07/2000
  13. 9,0 ºC em Santa Cruz – 01/06/1979
  14. 9,5 ºC em Realengo – 23/07/1975
  15. 9,7 ºC em Santa Cruz – 10/07/1994
  16. 9,9 ºC em Bangu – 08/07/1975
  17. 9,9 ºC em Bangu – 07/07/1975
  18. 9,9 ºC em Santa Cruz – 27/06/1994

Primeira metade do Século XX: muito frio mas poucos registros

Os seis primeiros registros da lista são bem antigos e por isso não encontramos nenhum jornal das respectivas épocas registrando os fatos, como faremos nas datas seguintes. No acervo do Globo dos anos de 1920 e 1930, a parte do jornal dedicada ao clima trazia apenas a previsão para o dia seguinte, e não as máximas e mínimas do dia anterior.

Ainda assim, existe um registro oficial, publicado pelo próprio O Globo em 2017 com informações do Inmet em que constam os registros mais frios. Dos 10 dias mais frios, 7 deles foram na Zona Oeste. A região que hoje concentra as marcas de altas temperaturas, tem em sua história os dias mais gélidos da cidade.

1975: a época mais fria em 42 anos

O inverno de 1975 foi um dos mais frios da história do Brasil, e seus impactos ainda causam espanto até hoje. Essa matéria do MetSul explica que a terceira semana de julho de 1975 teve uma das mais intensas incursões de ar polar que o Brasil enfrentou nas últimas décadas. De trajetória continental, avançando pelo interior da América do Sul, que rendeu na literatura a expressão “Poço dos Andes”, o ar gelado atingiu diversas áreas do território brasileiro.

A revista Veja, sobre o episódio, publicou: Nevasca de 1975: Curitiba vestida de noiva e o cafezal devastado.

E a Folha de Londrina registrou que o triste episódio devastou a plantação de café do estado.

No Rio de Janeiro, o frio não chegou aos -5,1°C registrado no Paraná, mas foi nesse inverno que ocorreram 5 das 18 medições abaixo dos 10 graus na Zona Oeste:

  • 8,5 ºC em Realengo – 07/07/1975
  • 9,9 ºC em Bangu – 07/07/1975
  • 8,7 ºC em Realengo – 08/07/1975
  • 9,9 ºC em Bangu – 08/07/1975
  • 9,5 ºC em Realengo – 23/07/1975

E o Rio teve o dia mais frio em 42 anos no dia 7 de julho, com os 8,2 que fez no Alto da Boa Vista:

Na imagem abaixo, os registros do jornal onde aparecem as temperaturas de Bangu, Realengo e Santa Cruz:

O dia em que fez mais frio em Realengo do que no Alto da Boa Vista

Se no dia 7 de julho de 1975 foi o dia mais frio do Rio em décadas, o dia seguinte, 8 de julho, foi um marco para a região da Zona Oeste: Realengo foi o lugar mais gelado da cidade.

A temperatura foi um pouco mais alta: 8,7°C em Realengo (no dia 7 foi 8,5°); enquanto em Bangu fez o mesmo 9,9°C. O que aconteceu, no entanto, foram os 9,0°C do Alto da Boa Vista.

O inverno em Realengo quase glacial.

Em 1994, mais uma onda de frio no Brasil inteiro

Em 27 de junho de 1994 fez 8,7ºC em Bangu e 9,9ºC em Santa Cruz. Mas o frio era generalizado aqui na região sudeste. Em São Paulo foram registradas três mortes por conta da baixa temperatura. Lá estava muito mais frio que aqui, é claro, 4,6ºC, e a previsão era de que o frio iria apertar ainda mais.

Aqui no Rio, a notícia era de que uma massa de ar polar tinha chegado no Brasil e empurrado a frente fria para fora. A promessa era de céu claro, com temperatura entre 10 e 20 graus.

A realidade, no entanto, foi um pouco mais congelante, como é possível ver no Jornal O Globo do dia seguinte, 28 de julho de 1994:

O termômetro no Alto da Boa Vista marcou 8,2. Em Bangu, fez 8,7. Em Santa Cruz, 9,9. Realengo não teve marcação nesse dia.

Desde a época em que se começou a medir a temperatura no Rio de Janeiro, as mínimas haviam sido:

  • 4,8° em 1926;
  • 6,2° em 1918; e
  • 6,4° em 1933.

No entanto, não temos o registro das mínimas dessa época na nossa região.

Um blog que fala de calor… mas hoje vai falar de frio

Quem acompanha o blog sabe que a gente costuma falar sobre o calor que faz na Zona Oeste com frequência. Mas, convenhamos, quase sempre é por causa do calor. Quando o verão castiga, Bangu vira meme, Guaratiba aparece nas manchetes, e a Zona Oeste vira sinônimo de forno.

Por isso, decidimos fazer uma apuração séria, com base em dados oficiais e fontes jornalísticas históricas, para entender quando exatamente a Zona Oeste viveu seus dias mais gelados. O resultado foi uma pesquisa que envolveu o cruzamento de planilhas meteorológicas com notícias de jornais antigos, para reconstruir momentos de frio que marcaram o Rio e, com alto grau de certeza, também chegaram com força à nossa região.

Como foi feita a pesquisa: INMET, planilhas e jornais antigos

O primeiro passo foi buscar os registros oficiais do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), disponíveis gratuitamente no site do órgão. A ferramenta de busca permite baixar planilhas com dados históricos de estações meteorológicas espalhadas pelo país.

Na Zona Oeste, ao longo do século 20, quatro estações se destacaram:

  • Realengo
  • Deodoro
  • Bangu
  • Santa Cruz

As estações foram analisadas nas décadas de 1960, 1970, 1980, 1990 e início dos anos 2000, antes de o INMET desativar a coleta contínua de dados na região.

A partir das planilhas, foi possível identificar os dias com temperaturas mínimas inferiores a 10 °C, algo que, mesmo na estação mais fria do ano, é incomum para os padrões do Rio.

O passo seguinte foi complementar a apuração com pesquisa em jornais da época, no acervo Digital do Globo.

O que os dados mostram: a Zona Oeste é quente e também é fria

Além da lista geral e dos registros que trouxemos no início do texto, também nos propusemos a fazer um comparativo entre os bairros da Zona Oeste e alguns outros que também tinham registros na época. Optamos por:

  • Jardim Botânico;
  • Laranjeiras;
  • Engenho de Dentro; e
  • Jacarepaguá.

O objetivo dessa comparação mais direta bairro a bairro era responder a uma pergunta: é sabido que é nesse lado da ZO onde faz mais calor, mas isso quer dizer que aqui faz menos frio?

Na média, as temperaturas são muito parecidas. Se olharmos apenas para os dias em que a temperatura média desses bairros foi menos de 16°C, temos:

  • 14,1°C em Realengo
  • 14,1°C em Jacarepaguá
  • 14,6°C no Jardim Botânico
  • 14,7°C em Bangu
  • 14,7°C no Engenho de Dentro
  • 15,9°C em Laranjeiras

Mas quando olhamos para o extremo, para os dias mais frios, com menos e 10 graus:

  • Jacarepaguá: 10 dias
  • Realengo: 5 dias
  • Bangu: 4 dias
  • Jardim Botânico: 1 dia
  • Laranjeiras: nenhum dia
  • Engenho de Dentro: nenhum dia

Caio Chagas de Assis

Sou jornalista e banguense. Nesse blog, tenho como objetivo escrever e organizar informações na internet sobre o bairro de Bangu e a região da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

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